Muitos mitos tem sido elaborados sobre a orígem desse misterioso
povo presente em todas as nações do ocidente, chamado de maneiras
diferentes, comumente conhecidos como gitanos, ciganos, zíngaros,
etc., cujo nome verdadeiro é Rom (ou melhor, Rhom) para a maioria
dos grupos e Sintos para os demais. Não exporemos aqui as lendas
universalmente reconhecidas como tais, a não ser o último mito
mais largamente difundido que ainda é considerado como verdade:
a presumida origem indo-européia.
O fato de que o povo rom chegou à Europa proveniente de algum
lugar da India não significa que tenham vindo de sua terra de
origem. Todos viemos de algum lugar onde nossos ancestrais viveram,
quiçá tendo chegado eles mesmos de algum outro país. Toda a
hipótese que sustenta a origem indo-européia se apóia num único
elemento: o idioma romanês. Tal teoria não leva em conta outros
fatores culturais muito mais importantes que evidenciam claramente
que o povo rom não tem nada em comum com as gentes da India,
exceto elementos linguísticos. Se devêssemos levar a sério uma
hipótese que se baseia somente no idioma para determinar a origem
do povo, chegaríamos à conclusão de que quase todos os norte-africanos
vieram da Arábia, que os judeus ashkenazim são uma tribo germânica,
que os judeus separaditas são simplesmente espanhóis que praticam
outra religião e não que são um povo diferente, etc. Os afro-americanos
não sabem sequer que idioma falavam seus ancestrais e portanto
deveriam considerar-se ingleses. Definitivamente, o idioma por
si mesmo não é suficiente para definir a pertinência étnica,
e todos os demais fatores determinantes são contrários à idéia
de uma origem indiana do povo rom - incluindo alguns elementos
presentes no próprio idioma romani. Os fatores mais importantes
que permanecem em todo povo desde a mais remota antiguidade
são de consistência espiritual, que se manifestam nos sentimentos
mais íntimos, comportamentos típicos, memória coletiva, quer
dizer, na herança atávica.
Neste estudo, começarei expondo o mito antes de apresentar as
evidências e a consequente hipótese sobre a verdadeira origem
do povo rom.
Os estudiosos fizeram muitos
esforços com o propósito de demonstrar a origem indiana do povo
rom, todos os quais foram inúteis por falta de evidências. Alguns
documentos que foram inicialmente considerados como referentes
ao povo rom, como por exemplo os escritos de Firdawsi, tem sido
sucessivamente desacreditados. Demonstrou-se que todos os povos
dos quais se pensou que poderiam ter alguma relação com os ciganos,
como os dom, os luris, os gaduliya lohars, os lambadis, os banjaras,
etc, na realidade não tem sequer uma origem comum com o povo
rom. A única semelhança entre todos eles é a tendência à vida
nômade e o exercício de profissões que são típicas de toda tribo
de qualquer extração étnica que pratica tal estilo de vida.
Todos estes resultados inúteis são a consequência natural de
uma investigação realizada a partir de parâmetros errados, ignorando
a essência da cultura romani e a herança espiritual do povo
cigano, que é incompatível com qualquer povo da India.
Uma teoria que recentemente
está obtendo sucesso no ambiente intelectual interessado no
argumento (teoria destinada a provar-se errônea como todas as
precedentes) pretende ter descoberto a "cidade" original
na qual o povo rom poderia ter suas origens: Kannauj, em Uttar
Pradesh, India. O autor chegou a algumas conclusões interessantes
que desacreditam todas as precedentes, sem dúvida seguiu a mesma
linha investigativa que produziu o fracasso daquelas outras:
o indício linguístico, que o conduz indefectivelmente a obter
um resultado errado. Por conseguinte, o autor funda sua hipótese
inteiramente sobre uma suposta evidência linguística, a qual
é absolutamente insuficiente para explicar os aspectos culturais
do povo rom que não estão relacionados com o idioma e que indubitavelmente
são muito mais importantes, aspectos que constrastam com a teoria
proposta.
Neste estudo citarei algumas afirmações do autor (traduzindo-as
do texto em inglês) recolocando sua estranha forma de escrever
as palavras em língua romani com uma forma mais exata e compreensível
- por exemplo, o caracter "rr" não representa nenhum
fonema em romanês; o som gutural do "r" está melhor
representado como "rh", mesmo que nem todos os dialetos
ciganos pronunciem desta forma, como o próprio gentílico "rom"
se pronuncia "rhom", porém também simplesmente "rom".
Geralmente o "h" se usa para indicar uma sonoridade
alternativa da consoante que o precede e no caso no qual os
acentos ortográficos, circunflexos e outros sinais não se podem
reproduzir de maneira adequada, o "h" serve como a
melhor letra complementar na maioria dos casos. Pessoalmente
prefiro o alfabeto esloveno com algumas leves modificações para
transcrever corretamente a língua romani, porém na internet
nem sempre é possível ver as páginas como foram escritas quando
se usam sinais ortográficos não convencionais, portanto usarei
a forma alternativa que consiste em agregar letras complementares.
Para
expor a teoria mencionada, começarei citando uma afirmação do
autor com a qual estou completamente de acordo:
" É sabido que na realidade
não existe nenhum povo na India atualmente que possa estar aparentado
com os rom. Os vários grupos etiquetados como "gypsies"
(com "g" minúsculo) na India não tem nenhuma relação
genética com os ciganos. Estes adquiriram o título de "gypsies"
através da polícia colonialista britânica que no século XIX
os chamou assim por analogia com os "Gypsies" da Inglaterra.
Sucessivamente lhes aplicaram as mesmas leis discriminatórias
que existiam para os "Gypsies" ingleses. Logo a maioria
dos estudiosos europeus, convencidos de que o nomadismo ou a
mobilidade são um caráter fundamental da identidade romaní insistiram
em comparar os rom com várias tribos nômades da India, sem encontrar
nenhum outro caráter em comum, porque suas investigações eram
afetadas por preconceitos para com os grupos nômades".
Isto
é certo, os investigadores tomaram idéias preconcebidas sobre
as quais fundaram suas hipóteses. Sem dúvida, o autor não é
uma exceção e cometeu o mesmo erro. De sua própria declaração
resultam as seguintes perguntas: Por que não existe nenhum povo
na India aparentado com os rom? Por que toda a população cigana
emigrou sem deixar o menor traço de si mesmos, ou alguns parentes?
Há uma só resposta: porque não eram da India, sua orígem não
pertencia àquela terra, e sua cultura era demasiado incompatível
com a cultura indiana.
Só uma minoria religiosa pode emigrar em massa de um país no
qual a maioria dos habitantes pertencem a sua própria família
étnica. E uma minoria religiosa naqueles tempos significava
que era uma confissão "importada", não gerada no ambiente
indiano.
O presumido exílio em Jorasan exposto pelo autor como a razão
pela qual o povo rom abandonou a India carece de fundamento,
pois não dá uma explicação sobre as crenças e tradições ancestrais
dos ciganos, as quais não são nem indianas nem islâmicas (porque
Jorasan nessa época não era mazdeísta [ou zoroastrista] já desde
muito tempo atrás), porém falaremos deste argumento mais adiante
neste estudo.
De toda maneira, o autor revela um mito na seguinte
declaração:
" Quanto às presumidas
semelhanças entre o idioma romani e outras línguas indianas,
geralmente o punjab e o rajastani, trata-se somente de um estratagema
usado pelos nacionalistas que representam tais grupos linguísticos
e defendem os interesses das respectivas nações: eles simplesmente
tentam aumentar artificialmente o número da própria população".
Este é exatamente o caso.
Tive a oportunidade por mera casualidade de encontrar na internet
grupos de discussão rajput/jat nos quais eles dizem estar convencidos
de que os ciganos são um clan jat ou rajput. Se o fazem ou não
em boa fé, o fato é que suas declarações são expressadas em
um contexto nacionalista e parecem perseguir propósitos de tipo
político. A principal presumida prova que apresentam é que os
árabes chamavam aos ciganos de "zott", que significa
"jat", desde o momento em que aparentemente chegaram
ao Oriente Médio. Sinceramente, os escritos dos historiadores
árabes são apenas um pouco mais exatos que as fábulas de "As
mil e uma noites" quanto à precisão histórica.
Havendo
devidamente reconhecido estas importantes reflexões do autor
da "teoria Kannauj", agora exponho suas afirmações
sobre as quais fundou erroneamente toda a sua hipótese:
"Contrariamente ao
que normalmente lemos em quase todas as publicações, os primeiros
rom chegaram à Europa conhecendo suas origens indianas. Há evidências
disto em vários documentos dos séculos XV e XVI. É só depois
que a mítica origem egípcia se propôs contra as versões que
sustentavam a proveniência indiana. Sendo mais prestigioso,
seria eventualmente mais fácil para a própria integração na
Europa. Pouco a pouco o mito da origem egípcia foi aceito como
autêntico".
Antes
de responder a esta afirmação, desejo mencionar outra declaração
na qual o autor se contradiz:
"Entre
todas as lendas, uma das mais difundidas é a da presumida origem
egípcia do povo rom, que eles mesmos começaram a promover no
início do século XVI [...] Em ambos os casos,
o prestígio do Egito com base na Bíblia e as histórias de perseguições
sofridas pelos cristãos nesse país provavelmente alimentaram
uma maior aceitação da lenda egípcia no lugar da origem indiana,
e provavelmente os ajudou a obter salvo-condutos e cartas de
recomendação da parte de príncipes, reis e mesmo do papa ".
(O
espaço entre colchetes será mencionado depois)
A primeira afirmação é inexata
porque há documentos precedentes, inclusive do século XII d.
c., nos quais os "egípcios" são mencionados em relação
com os ciganos. Normalmente os rom foram chamados de distintas
maneiras segundo a proveniência imediata, por exemplo na Europa
ocidental os primeiros ciganos eram conhecidos como "bohêmios",
"húngaros", etc. ( esta última denominação é ainda
muito comum em muitos países), enquanto que os árabes os chamavam
de "zott", significando "jat", porque provinham
do vale do Indo. É certo que jamais foram chamados de "indianos"
na Europa. Sem dúvida, tendo chegado à Europa pelo Iran e Armênia
através do Bósforo, é improvável que tenham passado pelo Egito
- existia na própria memória histórica o fato de que tenham
estado antes no Egito, desde onde seu caminho errante começou,
e assim declararam sua origem mais antiga. Naquele tempo a India
havia sido completamente esquecida. Antes de chegar a território
bizantino, como o autor mesmo admite, os rom habitaram por longo
tempo em países muçulmanos, e é certamente sabido que quem quer
que tenha abraçado o islam dificilmente se converte ao cristianismo.
Quando os ciganos chegaram a Bizâncio, já eram cristãos.
Agora se apresenta um enigma interessante: Como podiam os ciganos
conhecer A BÍBLIA em território muçulmano? Isto é algo que o
autor não pode justificar de maneira nenhuma, porque na realidade
os rom não conheciam as Escrituras senão só por ouvido até tempos
muito recentes. Seguramente na India, na Pérsia e em terras
árabes onde viveram antes de chegar à Europa não poderiam ter
ouvido jamais nenhum comentário sobre a Bíblia, nem tampouco
em Bizâncio ou Europa, onde o acesso às Escrituras estava proibido
à gente comum e não existiam versões em língua corrente. Não
há possibilidade de que os ciganos conhecessem a Bíblia a não
ser somente no caso que a história bíblica estivesse profundamente
radicada em sua memória coletiva.
Esta memória se conservou durante o prolongado exílio na India
de um modo tão forte que não adotaram nem sequer o menor elemento
da cultura hindu nem de nenhuma outra existente na India. A
maioria dos ciganos lê a Bíblia agora, e todos eles exclamam
assombrados: "Todas as nossas leis e costumes estão escritos
aqui!"- nenhum outro povo sobre a face da terra pode dizer
o mesmo, exceto os judeus. Nenhum povo da India, nem de outro
país.
(Este
é o espaço entre colchetes da citação anterior)
" Em todo caso, em Bizâncio em época primitiva, os adivinhos
ciganos eram chamados de Aigyptissai, "egípcios",
e o clero proibiu o povo de consultá-los para saber o futuro.
Tomando como pretexto o livro de Ezequiel (30:23), os rom foram
chamados de egípcios não só nos Balcãs mas também na Hungria,
onde no passado referiam-se a eles como "povo do Faraó"
(Faraonépek)e no ocidente, onde palavras provenientes do nome
grego dado aos egípcios (Aigypt[an]oi, Gypsy e Gitano) se usam
ainda em referência ao ramo atlântico do povo rom".
Devia existir um motivo
pelo qual em Bizâncio eram chamados de egípcios, motivo que
o autor não explica. É que os ciganos sabiam que tinham estado
no Egito em uma época remota do passado. Há outra palavra grega
pela qual os ciganos eram conhecidos em Bizâncio: "athinganoi",
da qual derivam os termos cigány, tsigan, zíngaro, etc. Os bizantinos
conheciam perfeitamente quem eram os athinganoi e identificaram
com eles os rom. De fato, a pouca informação que temos sobre
esse grupo coincide em muitos aspectos com a descrição dos ciganos.
Não há provas suficientes para afirmar que os athinganoi fossem
rom, porém tampouco existem evidências do contrário. A única
razão pela qual a possível identificação dos athinganoi com
os ciganos foi descartada a priori é porque aqueles são mencionados
no início do século VI d. c., época na qual, segundo os empedernidos
sustentadores da teoria da orígem indiana, os ciganos não deviam
estar na Anatólia. Os athinganoi eram chamados assim em relação
a seus conceitos e leis de purificação ritual, considerando
impuro todo contato com outro povo, muito similares às leis
ciganas para os "payos" ou "gadjôs" (não
ciganos). Praticavam a magia, a adivinhação, o encantamento
de serpentes, etc, e suas crenças eram uma espécie de judaísmo
"reformado" mesclado com cristianismo (ou com mazdeísmo/
zoroastrismo); observavam o Shabat e outros preceitos hebraicos,
criam na Unidade de Deus, porém não praticavam a circuncisão
e se batizavam (prática que não é exclusivamente cristã, senão
também comum entre os adoradores do fogo). Quanto aos athinganoi,
a Enciclopédia Judaica diz: "podem ser considerados judeus".
Outro fator significativo é que os ciganos relacionam sua condição
de constante movimento com o faraó, uma coisa que pertence exclusivamente
ao povo hebreu. Os documentos mais antigos sobre a chegada dos
rom à Europa constatam sua declaração de haverem sido escravos
do faraó no Egito, da qual surgem duas possíveis deduções: ou
era parte de sua memória histórica ou era algo que inventaram
para ganhar o favor das pessoas - a segunda possibilidade é
completamente improvável, posto que esta os identificaria com
um só povo, exatamente o mais odiado na Europa e não era certamente
a identidade mais conveniente para eleger.
"Observando restos
de precedentes migrações egípcias para a Ásia Menor e para os
Balcãs, pensaram que seria proveitoso para eles fazer-se passar
por cristãos do Egito, perseguidos pelos muçulmanos ou condenados
a perpétuo vagar para expiar sua apostasia ".
Esta
foi uma sucessiva "correção" que inventaram depois
de haver-se dado conta de que sua versão original da escravidão
no Egito sob o faraó era auto-destrutiva porque eram etiquetados
como judeus. Esta segunda versão é a que o autor considera "
a mais antiga menção desta lenda, no século XVI d. c. ",
porém a história original é muito mais antiga. Os ciganos nunca
disseram que provinham da India até que alguns gadjôs no século
XX lhes dissessem que haviam estudado muito e que a "ciência"
estabelece que eles são indianos.
A convicção do autor de que a pátria original dos rom
era a cidade de Kannauj se baseia simplesmente sobre uma conjectura,
reunindo elementos débeis que não provam nada e são facilmente
desmentidos pelas evidências que exporei mais adiante. Agora
leiamos sua hipótese:
"...uma
passagem do Kitab al-Yamini (Livro de Yamin), do cronista árabe
Abu Nasr Al- 'Utbi (961-1040), se refere ao ataque do sultão
Mahmud de Ghazni à cidade imperial de Kannauj, que concluiu
com a pilhagem e a destruição da mesma e a deportação de seus
habitantes até o Afganistão em dezembro de 1018...Sem dúvida,
com base em crônicas incompletas que mencionam só algumas incursões
na India norte-ocidental, não tem sido capazes de descrever
inteiramente o mecanismo de tal xodo... descreve uma invasão
no inverno de 1018-1019, que chegou muito mais longe para o
leste, mais além de Mathuta, até a prestigiosa cidade de Kannauj,
50 milhas a noroeste de Kanpur...No início do século XI, Kannauj
(a Kanakubja do Mahabharata e do Ramayana), que se extendia
por milhas ao longo do Ganges, era um importante centro cultural
e econômico da India setentrional; não só porque os mais instruídos
brâmanes da India afirmam ser de Kannauj (como ainda hoje),
senão também porque era uma cidade que havia conseguido um alto
nível de civilização em termos que hoje definiríamos como democracia,
tolerância, direitos humanos, pacifismo e inclusive ecumenismo.
Sem dúvida, no inverno de 1018-19, uma força invasora proveniente
de Ghazni (atual Afeganistão) capturou os habitantes de Kannauj
e os vendeu como escravos. Não foi a primeira incursão do sultão,
porém as anteriores haviam chegado só até o Punjab e Rajastão.
Esta vez chegou até Kannauj, uma cidade com mais de 50.000 habitantes
e em 20 de dezembro de 1018 capturou a população inteira, "ricos
e pobres, claros e obscuros [...] a maioria deles eram "nobres,
artistas e artesãos", para vendê-los, "famílias inteiras",
em Ghazni e Kabul (segundo o texto de Al-'Utbi). Logo, segundo
o mesmo texto, Jorasán e Iraque estavam "cheios desta gente"
.
O que é que nos leva a pensar que a origem dos rom tenha que
ver com esta deportação?"
Aqui
o autor demonstra que não lhe importam minimamente os elementos
culturais do povo rom, mas que está somente interessado em encontrar
uma possível origem na India e em nenhuma outra parte. Por conseguinte,
muitos detalhes importantes tem sido completamente ignorados.
Aqui menciono alguns: - Naquele tempo, a cidade de Kannauj era
governada pela dinastia Pratihara, que não eram hindus e sim
de etnia guijar, quer dizer, jázaros. Segundo as regras linguísticas,
os termos hindus "gujjar" e "gujrati" derivam
do nome original dos jázaros (khazar) através das regras fonéticas
comuns destas línguas: os dois idiomas hindus, não tendo os
fonemas "kh" ("j") nem "z", os
transcrevem como "g" e "j" ("y").
Portanto, se os ciganos eram os habitantes de Kannauj não eram
hindus e sim uma etnia muito próxima aos húngaros, aos búlgaros,
a uma pequena parte dos judeus ashkenazim, aos bashkires, aos
chuvashes e a alguns povos do Cáucaso e do vale do Volga...
A designação "húngaros" que lhes é normalmente atribuida
em muitos países ocidentais não seria tão errada - mais exata
que a definição de "indianos" ou "hindus",
em todo caso.
• Se fora certo que os ciganos estiveram sempre na India até
o século XI e.c. como afirma o autor, haveriam certamente praticado
a religião mais difundida nessa terra, ou de todo modo teriam
absorvido muitos elementos do bramanismo, especialmente se ser
um braman de Kannauj era um grande privilégio que outorgava
tanto prestígio. Sem dúvida, não se encontra o menor vestígio
de tradição bramânica na cultura e espiritualidade romani, ao
contrário, não há nada mais distante do "romaimôs"
(ciganidade) que o hinduísmo, o jainismo, o sikhismo ou qualquer
outro "ismo" de orígem indiana.
•O sultão de Ghazni era indubitavelmente muçulmano. O povo que
ele deportou se estabeleceu no Afeganistão, Jorasan e outras
regiões do Iran. Isto não haveria favorecido a adoção de elementos
culturais do mazdeísmo - (zoroastrismo, que são muito evidentes
na cultura romani) mas ao contrário, teria contribuido a evitá-los
porque os adoradores do fogo haviam sido praticamente aniquilados
pelo islam - certamente um povo no exílio não teria adotado
uma religião proibida para serem exterminados definitivamente!
Portanto, o povo rom esteve em terras iranianas antes de chegar
à India e sua cultura estava já bem definida quando chegaram
ali. Existe um só povo que tem exatamente as mesmas características:
os israelitas do Reino de Samaria exilados na Média, que conservaram
sua herança Mosaica porém também adotaram práticas dos magos
(classe social dedicada ao culto do fogo na Pérsia), e só uma
coisa não conservaram: seu idioma original (como tampouco os
judeus do reino de Jerusalém, já que o hebraico não se falou
mais até a fundação do Estado de Israel em 1948 e.c.). Os judeus
da India falam línguas indianas, porém são judeus e não indo-europeus.
Tendo assinalados alguns dos pontos débeis sobre os
quais se funda a teoria de Kannauj, é justo considerar as razões
que expõe o autor:
"Principalmente
os seguintes pontos:
•O detalhe "claros
e obscuros" explica a diversidade de cor de pele que encontramos
nos distintos grupos rom, porque a população original era mesclada.
Havia provavelmente muitos rajputs em Kannauj. Esta gente não
era aparentada com a população nativa, porém foram elevados
à casta kshatrya por méritos. Portanto, eles devem ser a porção
denominada "obscuros" da população".
Esta afirmação é demasiado
simplista para ser de um estudioso! Está bem estabelecido o
fato de que os ciganos se mesclaram com várias populações durante
suas longas travessias. Exatamente como os judeus. Basta visitar
Israel para notar que há judeus negros, judeus loiros, judeus
altos, judeus baixos, judeus com aspecto de indianos, de chineses,
de europeus, etc. A crônica mencionada pelo autor demonstra
que a população de Kannauj não era homogênea, não pertencia
a uma só etnia. De fato, havia rajputs, gujratis e muitos outros,
se a cidade era tão cosmopolita como parece. Isto não prova
que os ciganos tenham sido a população de Kannauj.
"•O fato que os escravos
capturados provinham de todo tipo de classes sociais, incluindo
nobres, explica como foi tão fácil para eles inserirem-se entre
a gente importante e influente como reis, imperadores, e papas
quando chegaram à Europa. Isto se deu porque entre os ciganos
havia descendentes dos "nobres" de Kannauj. O indianólogo
francês Louis Frédéric confirmou que a população de Kannauj
consistia maiormente de "nobres", artistas artesãos
e guerreiros."
Isto é pura especulação.
Os ciganos normalmente se davam a si mesmos títulos nobiliárquicos
ou de prestígio com o objetivo de obter favores, salvo-condutos,
etc. Isto foi praticado até há um século atrás pelos rom que
chegaram à América do Sul, os quais se proclamavam " príncipes
do Egito" ou nobres de algum país exótico. As autoridades
começaram a suspeitar quando notaram que havia tantos príncipes
de países estranhos. Há um detalhe importante que o autor não
levou em consideração: Ele afirmou que Kannauj era um prestigiado
centro bramânico. Como é possível que não existia uma casta
sacerdotal no povo rom? O que aconteceu com os presumidos "ciganos
brâmanes"? Todos os povos hindus tem uma casta sacerdotal,
e muitos outros povos as tinham, incluindo os medos e persas
(os magos) e os semitas, exceto um: os israelitas do Reino de
Samaria - depois que se separaram de Judá, perderam a tribo
de Levi e como consequência, nenhuma tribo foi dedicada ao sacerdócio.
Havia nobres, artistas, artesãos, guerreiros e todo tipo de
categorias sociais entre os norte-israelitas, porém não sacerdotes.
O que é também importante notar é que os nobres israelitas eram
muito apreciados nas cortes dos reis pagãos, e como tinham um
dom profético particular, muitos israelitas entraram na classe
dos magos da Pérsia, assim como outros se dedicaram à adivinhação,
à alquimia e coisas similares. Sem esquecer que a arte da magia
mais comum entre os ciganos é o "tarô", uma invenção
judaica.
"•Esta diversidade
social da população original deportada pode ter contribuido
para a sobrevivência da língua romani, quase mil anos depois
do êxodo. Como mostra a sócio-linguística, quanto maior é o
grau de heterogeneidade social em uma população deportada, mais
forte e largamente poderá continuar a transmitir o próprio idioma
."
Esta afirmação não prova
nada e é muito discutível, porque há muitos exemplos do contrário:
a história prova que os hebreus foram levados ao exílio em massa,
incluindo todas as categorias sociais, sem dúvida perderam o
próprio idioma num tempo relativamente breve - o fato singular
é que conservaram os distintos idiomas que adotaram na diáspora
em lugar do próprio idioma original, por exemplo, os judeus
mizraji ainda falam o assírio-aramaico, os sefaraditas ainda
conservam o ladino (espanhol medieval) seis séculos depois de
terem sido expulsos da Espanha, os ashkenazim falam o yiddisch,
e os ciganos falam o romani, a língua que adotaram no exílio.
Outros exemplos de povos deportados ou emigrados de todo extrato
social que perderam o próprio idioma em pouco tempo são os africanos
da América, do Caribe e do Brasil, a segunda e terceira geração
de italianos na América, Argentina, Uruguai, Brasil, etc., a
segunda e terceira geração de árabes nesses mesmos países, etc.
Outras comunidades conservam uma maior relação com o próprio
o idioma, como os armênios, ciganos ou judeus. Não existe um
parâmetro universal como o autor afirma.
"•A unidade geográfica
do lugar de onde os ancestrais dos ciganos partiram é importante
para a coerência do elemento indiano na língua romani, porque
as principais diferenças entre os diversos dialetos não se encontarm
no componente indiano, mas no vocabulário adquirido em solo
europeu ."
Este fator não determina
que a origem tenha sido na área da India. É certo que o idioma
romani se formou inicialmente em um contexto indo-europeu, porém
as mesmas palavras "indianas" são comuns a outros
idiomas que existiram fora do sub-continente, quer dizer, na
Mesopotâmia. As línguas hurríticas constituem a base mais factível
da qual todas as línguas indianas surgiram (basta analisar os
documentos do reino de Mitanni para compreender que o sânscrito
nasceu nessa região). As línguas de raiz sânscrita já se falavam
em uma vasta área do Oriente Médio, incluindo Canaã: os horeus
da Bíblia (hurritas da história) habitavam no Negev, os jebuseus
e heveus, duas tribos hurritas, na Judéia e Galiléia. Os norte-israelitas
foram inicialmente estabelecidos pelos assírios em "Hala,
Havur, Gozán e nas cidades dos medos" (II Reis,17:6) -
esta é exatamente a terra dos hurritas. Depois da queda de Nínive
sob a Babilônia, a maioria dos hurritas e parte dos norte-israelitas
em exílio emigraram para leste e fundaram o reino de Khwarezm
(Jorazmia), desde o qual sucessivamente colonizaram o vale do
Indo e o alto vale do Ganges. É interessante notar que algumas
palavras da língua romani pertencem ao hebreu ou arameu antigos,
palavras que não poderiam ter sido adquiridas num período mais
tardio em sua passagem através do Oriente Médio em direção à
Europa oriental, senão somente numa época muito anterior da
história, antes de sua chegada à India. Existe ainda um termo
muito importante e que os teóricos que sustentam a origem indiana
não levam em consideração: a denominação que os ciganos dão
a si mesmos, "rom". Não existe nenhuma menção de nenhum
povo rom em nenhum documento sânscrito. A palavra "rom"
significa "homem" em idioma cigano, e há só uma referência
a tal termo com o mesmo significado: em egípcio antigo, rom
quer dizer homem. A Bíblia confirma que os antigos norte-israelitas
tinham algumas diferenças dialetais com os judeus, e que eram
também mais apegados à cultura egípcia assim como ao ambiente
cananeu. A religião norte-israelita depois da separação de Judá
era de origem egípcia: o culto do bezerro. Por conseguinte,
não é difícil que a palavra egípcia que significava homem tenha
sido usada ainda nos tempos do exílio em Hanigalbat e Arrapkha
(territórios onde foram deportados), e após. Porém, como a origem
não deve ser estabelecida através do idioma, não me extenderei
na exposição deste argumento.
"•Este argumento contrasta definitivamente a teoria que
sustenta que os rom provêm "de uma simples conglomeração
de tribos dom" (ou de qualquer outro grupo). É útil mencionar
aqui que Sampson havia notado que os rom "entraram na Pérsia
como um único grupo, falando um idioma comum" ."
Concordo plenamente com
este conceito. Porém é necessário ressaltar que a "teoria
Dom" foi "a oficial" entre os estudiosos até
há pouco tempo, e assim como esta foi desacreditada, qualquer
outra que também insista com a origem indiana se baseia em falsas
premissas que conduzem a uma investigação contraditória sem
fim.
"• Provavelmente havia
um grande número de artistas dhomba em Kannauj, como em todas
as cidades civilizadas naqueles tempos. Como maior centro urbano
intelectual e espiritual na India setentrional, indubitavelmente
Kannauj atraía numerosos artistas, entre os quais muitos dhomba
(quiçá, mesmo sem absoluta certeza, os ancestrais dos atuais
dombs). Então, quando a população de Kannauj foi dispersa no
Jorasán e áreas circunstantes, os artistas dhomba capturaram
a imaginação da população local mais que os nobres e artesãos,
o que explicaria a extensão do título dhomba em referência a
todo o grupo de estrangeiros de Kannauj. Estes poderiam ter
adotado este nome para si mesmos como o próprio gentílico (em
oposição à designação mais generalizada de Sind[h]~, persa Hind~,
grego jônico Indh~ com o significado de "Indiano"
- do qual provem o nome "sinto", apesar da paradoxal
evolução de ~nd~ a ~nt~, que deve ser postulada neste caso.
De fato, em alguns dialetos romanís, principalmente na Hungria,
Áustria e Eslovênia, parece apresentar-se esta evolução de ~nd~
a ~nt~)."
Visto que o autor não encontra
uma explicação verossímil para o termo "rom", recorre
a subterfúgios especulativos que são absolutamente improváveis.
Isto se manifesta em suas próprias expressões: "provavelmente",
"quiçá", "poderia", "parece",
etc... Toda a estrutura sobre a qual se funda esta teoria fracassa
pela impossibilidade de explicar os caracteres culturais e espirituais
próprios dos povos rom e sintos, e essencialmente, a afirmação
de que"poderiam ter adotado este nome (dhom) para si mesmos
como próprio gentílico" se revela completamente errada.
O autor se contradiz a si mesmo, porque anteriormente havia
declarado que "muitos kannaujis eram nobres", e logo
supõe que estes mesmos "nobres" tenham adotado para
si mesmos o nome de uma "casta inferior" como eram
os artistas Dhomba.
"•O fato de que a população
proto-romaní provenha de uma área urbana e que eram maiormente
nobres, artistas e artesãos pode quiçá ser a razão pela qual
pouquíssimos ciganos se dedicam à agricultura até hoje. Ainda
que "o solo da região fosse rico e fértil, os cultivos
abundantes e o clima cálido", o peregrino chinês Xuán Zàng
(latinizado como Hsuan Tsang) notou que " poucos dos habitantes
da região se ocupavam da agricultura". Na realidade, a
terra era cultivada maiormente para a produção de flores para
fabricar perfumes desde a antiguidade (principalmente com propósitos
religiosos) ."
Esta afirmação também não
prova nada, mas confirma ainda mais a hipótese de que realmente
não eram de orígem indiana: uma comparação cuidadosa com o povo
judeu leva à mesma conclusão, porque os israelitas de todas
as classes sociais foram deportados de sua própria terra, porém
os judeus nunca se dedicaram à agricultura e viveram sempre
em cidades onde quer que estivessem na diáspora. Os judeus se
fizeram agricultores só recentemente, no Estado de Israel, porque
era necessário para o desenvolvimento da Nação. Há suficientes
evidências para provar que quando os ciganos chegaram à India
já eram um povo com as mesmas características que ainda hoje
tem, porque tanto os norte-assírios como os assírios-caldeus
(babilônicos) praticaram a deportação seletiva de ambos os Reinos
de Israel e Judá, como lemos: "E (o rei de Babilônia) levou
em cativeiro a toda Jerusalém, a todos os príncipes, e a todos
os homens valentes, dez mil cativos, e a todos os artesãos e
guerreiros, não ficou ninguém, exceto os pobres do povo da terra.
Assim mesmo levou cativos a Babilônia a Yehoyakin, a mãe do
rei, as mulheres do rei, a seus oficiais e aos poderosos do
país; cativos os levou de Jerusalém a Babilônia. A todos os
homens de guerra.." (II Reis, 24:14-16); "Mas Nabuzaradán,
general do exército, deixou os pobres da terra para que lavrassem
as vinhas e a terra" (II Reis, 25:12). A mesma coisa haviam
feito 120 anos antes os reis assírios no Reino de Israel, e
os camponeses que eles deixaram são os atuais samaritanos, enquanto
que a grande maioria dos israelitas hoje se consideram "perdidos",
e tem-se verificado que a maior parte deles emigrou para a India.
"•Parece que um pequeno
grupo fugiu da invasão navegando no Ganges e chegando até Benares,
de onde devido à hostilidade da população indígena, se mudaram
e se assentaram na área de Ranchi. Esta gente fala a língua
sadri, um idioma indiano especificamente usado para a comunicação
inter-tribal. É digno mencionar que o sadri parece ser a língua
indiana que permite uma melhor comunicação entre seus falantes
e o romanês."
Novamente o autor especula
teorizando uma relação entre uma tribo indiana e os ciganos
somente através de uma aparente semelhança linguística, porém
nada que tenha que ver com a cultura e a espiritualidade romaní,
nem seus costumes ou tradições, e nenhuma prova histórica. Os
idiomas são um ponto de referência relativo e muitas vezes enganosos,
porque podem ser adotados por povos completamente diversos da
etnia original. Provavelmente o autor não conhece alguns casos
enigmáticos como o seguinte: há uma província na Argentina,
Santiago del Estero, onde ainda se fala uma língua indígena
pré-colombiana: o quíchua, um dialeto do idioma dos incas. O
fato curioso é que quase todos os que a falam não são indígenas,
mas sírios-libaneses que se estabeleceram nessa província há
apenas um século atrás! Num suposto evento desastroso do futuro
no qual se percam todos os documentos referentes à imigração
árabe, os estudiosos do século XXV seguramente especulariam
afirmando que esses árabes são os últimos autênticos sobreviventes
da antiga civilização inca...O que não serão capazes de explicar
é por que esses "incas" tinham tradições ortodoxas
num país católico romano, ainda que ambas as tradições sejam
muito mais próximas entre si do que a cultura cigana às da India.
Outro exemplo similar nos dão os ciganos mesmos: na Italia norte-
ocidental, o dialeto piemontês se fala cada vez menos entre
os gadjôs, só as pessoas mais velhas ainda o conservam e já
não é a língua principal das crianças piemontesas, que falam
italiano. A conservação do dialeto depende exclusivamente dos
sintos piemonteses, que o adotaram como a própria língua "romaní"
e serão provavelmente os únicos que falarão esse dialeto ao
final do presente século. Em uma situação imaginária como a
descrita acima, os estudiosos do futuro chegarão à conclusão
de que os autênticos piemonteses são os ciganos sintos dessa
região...
"•Ademais, os falantes
do sadri tem o costume, durante cerimônias especiais, de verter
um pouco de bebida, dizendo: " por nossos irmãos que o
vento frio levou para além das montanhas" (comunicação
pessoal por Rézmuves Melinda). Estes "irmãos" poderiam
ser os prisioneiros de Mahmud. Porém é necessário um estudo
mais intensivo sobre o grupo de falantes do sadri."
Outra conjectura especulativa
baseada sobre dados superficiais. As deportações eram frequentes
naqueles tempos, e afirmar que se referem aos ciganos é mais
que atrevimento. O que é mais significativo desta tradição sadri
é que o "vento frio para além das montanhas" é dificilmente
aplicável a uma deportação para oeste, para além dos rios, supostamente
por um vento cálido; é mais bem coerente com uma deportação
para o norte, para além do Himalaia, de onde sopra o vento frio.
"•A deusa protetora
de Kannauj era Kali, uma divindade que é muito popular entre
os ciganos."
Esta é realmente uma estranha
afirmação para alguém que se considera um estudioso da cultura
romani, porque efetivamente os ciganos não têm a menor idéia
da existência da deusa hindú Kali, e não tem nenhuma "popularidade".
Não sei se o autor inseriu esta falsa afirmação com o único
propósito de reforçar sua teoria, porém prefiro crer em sua
boa fé. Não há nenhum elemento em minha família que possa levar
a pensar que tal tradição tenha existido algum dia, nem tampouco
existe entre as numerosas famílias de rom e sintos que conheci
em todo o mundo, desde a Rússia até a Espanha, da Suécia à Itália,
dos Estados Unidos à Terra do Fogo (a terra mais ao sul no mundo),
de todos os ramos ciganos, dos kalderash, lovaras, churaras,
aos calé espanhóis, dos sintos estraxaria e eftavagaria aos
kalé finlandeses, desde os matchuaia aos horahanés sulamericanos.
Desafio a quem quiser perguntar a um cigano quem pensa que é
Kali - sua resposta será: "uma mulher negra", porque
"kali" é o gênero feminino de "kaló", que
significa negro (não porque eles saibam que o ídolo hindu é
também negro). Conheço a maioria das famílias ciganas mais distintas
no mundo, e sugiro ao autor visitar os rom da Argentina, onde
por algum motivo a cultura cigana kalderash (russo-danubiana)
se conserva de modo mais genuíno que em qualquer outro país
.
A devoção de alguns grupos para "Sara kali" na Camargue
(sul da França) tem que ver com a tradição católica romana,
não com o hinduísmo. De fato, há "virgens negras"
em quase todos os países católicos (inclusive na Polônia). Sara
"kali" se chama assim porque é negra, e por casualidade
ou não, tem o mesmo nome que a mãe do povo hebreu, o que pode
ser a razão pela qual os ciganos católicos a elegeram como a
própria santa.
"•Ademais, o antigo
nome da cidade era Kanakubja (ou Kanogyza em textos gregos),
que significava "molestada, vírgem maculada". A origem
deste surpreendente nome se encontra numa passagem do Ramajan
de Valmiki: Kusmabha fundou uma cidade chamada Mahodaja (Grande
Prosperidade); ele tinha cem formosas filhas e um dia, quando
brincavam no jardim real, Váju, deus do vento, se enamorou delas
e quis casar-se com elas. Desgraçadamente foi rechaçado e as
molestou a todas, o que deu o nome à cidade. Em outra versão,
Kana Kubja era o sobrenome de uma devota molestada de Krishna,
a qual o deus lhe deu um corpo restabelecido e forte como recompensa
pela unção de seus pés. De fato, "vírgem molestada"
era um dos títulos de Durga, a deusa guerreira, outra forma
de Kali. Em outras palavras, podemos fazer uma identificação:
kana kubja ("vírgem molestada") = Durga = Kali. Rajko
Djuric mencionou algumas similaridades com o culto romaní de
Bibia ou Kali Bibi e o mito hindu de Kali."
Outra argumentação puramente
especulativa sem qualquer apoio real. Histórias similares são
muito comuns no Oriente Médio (recomendo ao autor ler "As
1001 noites" para uma melhor documentação). É perfeitamente
sabido que os ciganos usualmente adotam lendas dos países onde
tem sido hóspedes e as adaptam segundo sua própria fantasia.
É também um fato que a maioria das lendas e fábulas etiquetadas
como "ciganas" são por sua vez classificadas como
"judias", e ambas se consideram a fonte original.
Há também algumas lendas persas, armênias e árabes na literatura
oral romani.
Pergunto-me por que o autor não menciona a popularidade que
tem o Profeta Elias em muitos grupos Rom...quiçá porque não
pode explicar a origem indiana de tal tradição. Elias era um
Profeta do Reino de Samaria.
"•O tempo que os rom
passaram em Jorasán (um ou mais séculos) explicaria os numerosos
temas persas integrados ao vocabulário romani (uns 70 - além
de 900 temas indianos e 220 gregos), porque o Jorasán era uma
região de língua persa."
O mesmo parâmetro é válido
para o exílio na India. Assim como tais palavras não provam
uma origem persa, tampouco o vocabulário indiano prova uma origem
indiana, porém só uma longa estadia. A exposição seguinte do
autor está orientada puramente no aspecto linguístico, e ainda
que seja uma argumentação coerente, não prova absolutamente
a orígem em Kannauj, como veremos:
"Outro elemento surpreendente
é a coincidência de três caracteres linguísticos que conectam
o romanês com as línguas da área de Kannauj, ou só principalmente
com estas, quer dizer:
- entre todos os idiomas
indianos modernos, só o braj (chamado também de braj bhaka,
um idioma falado por uns 15 milhões de pessoas na região a oeste
de Kannauj) e o romanês distinguem dois gêneros na terceira
pessoa do singular dos pronomes pessoais: yo ou vo em braj (provavelmente
ou em braj antigo) e ov, vov ou yov, "ele" em romanês
para o masculino. E ya ou va em braj e oy, voy ou yoy, "ela"
para o feminino, enquanto que os outros idiomas indianos tem
uma forma única, usualmente yé, vé, "ele, ela" para
ambos os gêneros. Estes pronomes podem ouvir-se todos os dias
nas ruas de Kannauj.
- entre todos os idiomas
indianos modernos, só os dialetos da área de Kannauj, alguns
braj e nepalês (O Nepal está a sómente sessenta milhas de Kannauj)
tem a terminação dos substantivos e adjetivos masculinos en
~o (ou ~au = ~o) idênticos ao romanês, que é também ~o: purano
"antigo, velho" (em outros idiomas taruna, sinto tarno,
romaní terno). De fato, a evolução dialetal de ~a a ~o depende
de regras complicadas que devem ser ainda definidas.
- E por último porém não
menos importante, entre todos os idiomas indianos modernos,
só o awadi (uma língua falada por uns 20 milhões de pessoas
em uma vasta área a leste de Kannauj) apresenta como o romanês
uma forma alternativa longa para a posposição possessiva. Não
há só um estrito paralelo no próprio fenômeno mas também as
posposições são idênticas em sua forma: agregado à forma curta
(~ka, ~ki, ~ke) que é comum a todos os idiomas indianos, o awadi
tem uma variante longa ~kar(a), ~keri, ~kere, exatamente como
muitos dialetos arcaicos do romanês, como os da Macedônia, Bulgária,
(~qoro, ~qiri e ~qere), Eslováquia e Russia (~qero, ~qeri, ~qere),
forma que foi reduzida nos dialetos sintos ( ~qro, ~qri, ~qre).
Ademais, uma missão recente em algumas aldeias da zona de Kannauj
descobriu indícios de um idioma inexplorado similar ao romanês
(tikni "pequeno", day "mãe" [hindi "parteira"],
ghoro "jarra", larika "jovem" [hindi larhka]
etc...). Isto justifica a afirmação do professor Ian Hancock
que "o idioma mais próximo ao romanês é o hindi ocidental",
comumente chamado braj, que divide a maioria de suas características
com o kannauji moderno."
Como
eu disse anteriormente, o argumento é interessante, porém não
prova nada, pelos seguintes motivos:
•Todas as aclarações que assinalou o autor demonstram que o
idioma romaní é gramaticalmente mais complexo que a maioria
das línguas faladas na India, o que significa que quando os
ciganos estavam na India, muito provavelmente existia um idioma
muito mais homogêneo - ainda que não evoluído - para as várias
línguas que por lógica linguística adotam formas gramaticais
mais simples. Isto sucedeu, por exemplo, com o latim, que um
tempo era falado em uma vasta área da Europa e que evoluiu para
o italiano, o espanhol, o português, o catalão, o ocitano, o
romeno, etc, todos os quais tem uma gramática mais simples.
•Por conseguinte, como foi indicado, todas as línguas hindi
ocidentais foram um dia um único idioma, do qual o romanês se
separou num período inicial de sua formação. Esta etapa primitiva
pode perfeitamente implicar no período hurrita, antes da estadia
na India, porém é só uma suposição. O que se deduz em todo caso
é que toda a família hindi ocidental, quer dizer, os idiomas
do vale do Indo e do Rajastan, são descendentes diretos do suposto
idioma "kannauji", o que implica que o romanês não
deva necessariamente ter que ver com a zona de Kannauj e possa
perfeitamente ter relação com toda a região desde o Kashmir
até Gujarat, desde o Sindh até Uttar Pradesh.
•É também certo que toda a região mencionada acima, da qual
se supõe provem o romanês, não estava então relacionada com
os povos indianos mas com tribos escita-sármatas estabelecidas
no vale do Indo e em Sakastan, incluindo Kannauj (que era governada
por uma dinastia gujjar) e que tem algo em comum: todas chegaram
ali vindas do ocidente! Há evidências irrefutáveis de que os
povos da região do vale do Indo eram "sakas" e não
arianos.
•O fato de que vestígios do idioma antigo ainda existem na zona
de Kannauj não implica absolutamenteque essa seja a terra de
orígem, e na história linguística há muitos exemplos:
- no passado o celta era falado em quase toda a Europa, hoje
sobrevive em algumas regiões das Ilhas Britânicas e na Bretanha,
que não são a pátria original dos celtas.
- tomando novamente como exemplo o latim, o idioma falado mais
próximo hoje não é o italiano, mas o romeno, que geograficamente
está muito longe do lugar onde o latim nasceu.
- por um tempo em toda a Ucrânia se falava o húngaro e línguas
aparentadas, por quase quatro séculos (entre Atila e Árpád),
e hoje não há vestígios do húngaro na Ucrânia, mas se fala na
Hungria, Transilvânia e áreas circunstantes.
- da mesma maneira, o turco não foi falado na Ásia Menor até
fins da Idade Média, e não existe mais em sua pátria de orígem.
- acertou-se que o basco (euskara) se originou no Cáucaso, o
extremo oposto da Europa de onde o basco se fala hoje, sem deixar
nenhum indício intermediário na longa viagem que os antigos
bascos realizaram, e não se fala em nenhuma zona do Cáucaso,
onde há sómente línguas aparentadas.
- o único povo que pode ler sem dificuldades as sagas nórdicas
no idioma em que foram escritas são os islandeses e feroeses,
enquanto que os suecos, noruegueses e dinamarqueses, cujos ancestrais
as escreveram, dificilmente podem fazê-lo.
- foi possível decifrar a antiga língua dos sumérios só com
a ajuda do húngaro moderno, o que demonstra o quanto é impreciso
relacionar uma língua com a área geográfica onde é falada no
presente.
Há muitos outros exemplos como os citados, porém estes
devem ser suficientes. Ainda há outro argumento que o autor
propõe:
"No
que concerne à cronologia do êxodo, esta coincide com o período
de Mahmud, sendo claro que não pode ter ocorrido antes do século
X d. c. porque o romanês apresenta duas características gramaticais
importantes que se formaram até o final do primeiro milênio,
quer dizer:
a) a formação do sistema posposicional no lugar da antiga e
média flexão indiana;
b) a perda do gênero neutro com a assinalação destes substantivos
ao masculino ou ao feminino. Como quase todos estes substantivos
foram assinalados em romanês aos mesmos gêneros que no hindi
(Hancock, 2001:10), se pode deduzir que este fenômeno se verificou
quando o romanês ainda era falado em solo indiano. Portanto,
o romanês se separou de outras línguas indianas só depois destas
evoluções ."
O
que o autor não leva em consideração é o seguinte: não havia
um idioma indiano unificado, mas existia um caráter distintivo
entre a região escita-sármata e a região ariana. Ademais:
a) a posposição é uma característica típica das línguas escito-sarmáticas;
b) só os gêneros masculino e feminino existiam na variante do
"antigo indiano" falado no vale do Indo, antes que
os brâmanes conseguissem unificar toda a India ou a maior parte
dela, portanto, o idioma também foi unificado e logicamente
ambas as partes contribuiram. Porém a forma mais simplificada
prevaleceu, pelo que o gênero neutro desapareceu da variante
ariana. Não era necessário que os ciganos estivessem ainda na
India quando o idioma foi unificado.
O resto do estudo escrito
pelo autor da "teoria de Kannauj" não tem que ver
com a presumida orígem do povo rom mas com alguns dados históricos
sobre Kannauj que não são importantes para esta investigação,
portanto eu termino aqui os comentários sobre sua hipótese e
começo a expor outros aspectos da cultura romaní que são certamente
mais importantes que o idioma e demonstram que os ciganos não
tem nada em comum com nenhum povo da India, nem no presente,
nem no passado. Os aspectos que apresentarei aqui não podem
ser explicados pelos sustentadores da teoria da orígem indiana.
As
características culturais e espirituais do povo rom podem classificar-se
em duas categorias principais:
1)Crenças, leis, preceitos e tradições relacionadas com o hebraísmo,
muito importantes no interior da comunidade romaní;
2) Práticas relacionadas com o culto do fogo e algumas crenças
deste tipo, maiormente usadas nas relações com o ambiente não-cigano.
Antes de expor estes aspectos,
convém dar um breve resumo histórico de modo que o leitor possa
entender melhor como e por que os ciganos estavam na India em
um determinado período e por que não podem ser originários dessa
terra. A "pré-história" romaní começou na Mesopotâmia,
no baixo vale do Eufrates, sua "proto-história", no
baixo vale do Nilo e em Canaã...
Durante a expansão semítica
no Oriente Médio, uma família semita se transladou de Sumer
a Canaã e depois ao Egito, onde cresceu em número e importância
dentro da sociedade egípcia, tanto que chegaram a ser odiados
e submetidos a escravidão até que sua libertação chegou e abandonaram
o país para se radicar em Canaã. Naquele tempo eram constituidos
por treze tribos, uma das quais dedicada ao sacerdócio, e as
outras doze eram o "povo", chamado Israel. Aquela
nação tinha uma particularidade que a distinguia de todas as
outras nações daquele tempo: criam em Um só Deus. Receberam
um estatuto de leis, preceitos e artigos de fé que deviam observar
e estabeleciam sua separação de toda outra gente, leis que concerniam
a pureza e impureza ritual e outras características que faziam
deles um povo particular, distinto de todo outro povo no mundo.
Tinham uma memória comum, que haviam sido exilados no Egito,
e uma herança comum, o conjunto de preceitos que estabelecia
que se não os observassem, seu destino seria novamente o exílio,
não no Egito, mas em toda a terra.
Sem dúvida, apenas conquistaram sua terra, as diferenças entre
a Tribo mais notável e as demais começaram a ser mais evidentes,
até que o Reino se dividiu em dois: as Tribos do norte eram
mais apegadas a seu passado egípcio e como sinal de sua separação
elegeram um ídolo egípcio em forma de bezerro para representar
o Deus Único (às vezes também adoraram divindades inferiores),
e rechaçaram a Tribo sacerdotal, que se uniu ao Reino de Judá
no sul. O reino setentrional de Israel permitiu práticas proibidas
relacionadas com a magia, adivinhação e predição da sorte. No
ano 722 a.e.c., os assírios invadiram o país e levaram cativa
a quase toda a população, deixando só os camponeses, e levaram
os israelitas ao exílio em outra terra que haviam conquistado:
o reino de Hanigalbat-Mitanni, onde se falava um idioma muito
similar ao romanês e cujas divindades principais eram Indra
e Varuna. Esse país não era a India, mas ficava na alta Mesopotâmia.
Os nativos dali são conhecidos na história como hurritas. Farei
aqui um parêntese para dar uma breve descrição dessa nação antes
de continuar com a história do nosso povo:
Os
hurritas, ancestrais dos povos da India
A evidência mais antiga
da existência de uma língua indiana não se encontra na India
mas na bacia do Eufrates e do Tigre, desde o século XVI a.e.c.
Ali estava o império de Mitanni, que se extendia desde a costa
do Mediterrâneo até os montes Zagros, em conflito com os hititas
no oeste e com os egípcios no sudoeste pelo controle do rio
Eufrates. O idioma de Mitanni era hurrita; há uma clara evidência
do vocabulário sânscrito nos documentos de Mitanni:
ila-ni mi-it-ra as'-s'i-il
ila-ni u-ru wa.na-as's'i-el (en otro texto a.ru-na-as'.s'i-il)
in.dar (otro texto: in-da.ra) ila-ni na-s'a-at-ti-ya-an-na (cf.
Winckler, Mitteilungen der Deutschen Orient-Gesellschaft No.
35, 1907, p. 51, s. Boghazkoi-Studien VIII, Leipzig 1923, pp.
32 f., 54 f.)
Os
quatros deuses mencionados neste tratado são os mesmos que encontramos
no Rigveda (RV. 10.125.1). P. Thieme demonstrou que os deuses
dos tratados de Mitanni são especificamente védicos. Varun.a
e Mitra, Indra e N-satyau, com estes nomes se encontram somente
nos escritos védicos. Porém, estão nos documentos hurríticos!
No tratado entre os hititas e Mitanni, os reis de Mitanni juraram
por: Mi-it-ra (índico Mitra), Aru-na (Varun.a), In-da-ra (Indra)
e Na-as-at-tiya (Nasatya ou As'wins). Num texto hitita relativo
ao adestramento de cavalos e ao uso dos carros de guerra escrito
por Kikkuli (um hurrita) se usam os números indianos para indicar
as voltas de um carro num percurso: aika (índico eka 'um'),
tera (tri 'três'), panza (panca 'cinco'), satta (sapta 'sete')
e na (nava 'nueve').
Em outro texto hurrita de Nuzi se usam palavras indianas para
descrever a cor dos cavalos, por exemplo, babru (índico babhru
'marrom'), parita (palita "cinza") e pinkara (pingala
'rosa pink'). O guerreiro a cavalo de Mitanni era chamado "marya"
(indiano-védico marya, 'guerreiro, jovem'). Ademais há uma série
de nomes dos nobres e aristocratas de Mitanni que são claramente
indianos.
É já geralmente aceito pela grande maioria dos "experts"
na materia que os vestígios linguísticos arianos no Oriente
Médio são especificamente indianos e não iranianos, e que não
pertencem a um terceiro grupo nem tampouco se devem atribuir
a um hipotético proto-ariano. Esta conclusão foi incorporada
na obra de M. Mayrhofer, em sua bibliografia sobre o argumento,
Die Indo-Arier im Alten Vorderasien (Wiesbaden, 1966), e é a
interpretação comumente aceita. Esta se baseia no fato de que
quando existem divergências entre o iraniano e o indiano e quando
tais elementos aparecem em documentos do Oriente Médio, estes
últimos sempre concordam com o indiano.
A divisão do proto-ariano em seus dois ramos, indiano e iraniano,
deve necessariamente ter ocorrido antes que tais línguas se
tenham estabelecido em seus respectivos territórios e não meramente
como consequência de desenvolvimento independente depois que
os indianos se estabeleceram na India e os iranianos no Iran.
Esta conclusão poderia demonstrar-se errônea somente se se pudesse
demonstrar que os indianos védicos, uma vez emigrados até a
região do Penyab desde sua pátria primitiva tenham empreendido
uma viagem de regresso até o Oriente Médio. Não há nenhuma evidência
de tal eventualidade e por conseguinte uma teoria que suponha
tal complicação pode ser ignorada com absoluta segurança...
Uma conclusão ulterior em base a esta hipótese é que o período
proto-ariano deveria ser antecipado muitíssimo tempo com respeito
ao que se tenha estabelecido, e de todas as maneiras não poderia
ser mandado a um período anterior ao século XX a.e.c., no máximo.
Sarasvati é em primeiro lugar o nome proto-indiano de um rio
no Iran, que depois da migração foi transferido ao rio da India.
O nome iraniano, Haraxvaiti, é uma palavra tomada em préstimo
do proto-indiano, com a substituição de h- por s-, o que ocorre
também em Hind/Sindhu. Outro caso similar é o nome do rio Sarayu,
que foi transferido do Iran (Haraiva-/Haro-yu) a um rio do noroeste
da India, e após a um afluente do Ganges na India oriental.
Os hurritas estavam presentes no Oriente Médio desde tempos
remotos, o que se pode determinar em base a termos suméricos
com ta/ibira, 'ferreiro em cobre', para o qual há suficientes
provas que pertence a uma orígem hurrita (Otten 1984, Wilhelm
1988). Atal-s'en se descreve a si mesmo como o filho de S'atar-mat,
de outra maneira desconhecido, cujo nome é também hurrita. A
regra de Atal-s'en não pode ser datada com certeza, porém provavelmente
pertence ao final do período gúteo (cerca de 2090-2048 a.e.c.),
ou as primeiras décadas do período de Ur III (2047-1940 a.e.c.).
Documentos do período de Ur III revelam que a área montanhosa
ao leste e ao norte do vale do Tigre e do Eufrates eram então
habitadas por povos de língua hurrítica, que eventualmente penetraram
na região oriental do Tigre ao norte de Diyala. Como resultado
das guerras de S'ulgi (2029-1982 a.e.c.), um grande número de
prisioneiros hurritas se encontravam em Sumer, onde eram empregados
em trabalhos forçados. Por este motivo, um grande número de
nomes hurritas se encontram na baixa Mesopotâmia no período
de Ur III. A etmologia de tais nomes é certamente ou quase seguramente
indiana, por exemplo Artatama = védico r.ta-dha-man, 'cuja habitação
é r.ta', Tus'ratta (Tuis'eratta) = védico tves.a-ratha, 'cujo
carro surge com ímpeto', Sattiwaza = antigo indiano sa_ti-va_ja.
'que toma un botim', védico va-ja-sa-ti, 'aquisição de un botim'
(Mayrhofer 1974: 23-25). O idioma hurrita se usava no século
XIV a.c. ao menos até a Síria central (Qatna, e provavelmente
Qadesh), e sua expansão provavelmente foi o resultado dos movimentos
demográficos durante a hegemonia de Mitanni. Entre os deuses
que eram ainda adorados no fim do século XIV pelos reis de Mitanni
encontramos Mitra, Varuna, Indra e os gêmeos Nasatya, que cononhecemos
através dos vedas, os poemas indianos mais antigos.
A
longa viagem para a India
Voltando à história do nosso
povo, o país descrito acima é onde os encontramos em 722 a.
c. Este foi o começo da evolução de seu novo idioma adquirido,
e o início do esquecimento da identidade do povo que foram no
passado, exceto pela consciência de saber que eram diferentes,
um povo particular que não pode mesclar-se com os "goyim"
(logo "gadjôs", "payos"). Tem certos preceitos
aos quais não renunciariam, as leis de pureza ritual e a crença
em um Deus Único, o Deus que prometeu e cumpriu: seriam de novo
espalhados e viveriam no exílio, quiçá para sempre...Não serão
mais chamados "Israel", agora são só "homens",
que seus ancestrais no Egito chamavam "rom".
Depois da deportação assíria,
os babilônios exilaram também os compatriotas do Reino de Judá,
porém eles mantiveram sua identidade, sua estrutura social e
sua Tribo sacerdotal, e 70 anos depois regressaram a Canaã,
sendo então reconhecidos como "judeus". Em seu relativamente
curto exílio, lograram resgatar parte de seus irmãos do antigo
Reino de Samaria, porém a maioria deles permaneceu na diáspora.
Babilônia caiu em mãos de uma nova potência, Média e Pérsia,
um povo não semítico e de algum modo aparentado com os hurritas
de Mitanni. Tinham uma religião particular que incluia o culto
do fogo e a magia; de fato os membros da casta sacerdotal se
chamavam magos. Os exilados, anteriormente israelitas e agora
simplesmente "homens", rom, eram muito hábeis em tais
artes e entenderam que praticá-las era proveitoso, pelo que
adotaram tais elementos e os incorporaram na própria cultura,
porém em função de suas relações com os outros, os gadjôs. O
Império Persa era vasto, se extendia até Sakastan, mais além
do Sindh. O vale do Indo era uma terra muito desejável, e teria
ajudado a esquecer o exílio na Assíria, o lugar ideal para estabelecer-se
e começar uma nova vida...
Ultimamente há uma organização
judaica internacional chamada "Kulanu" ("Todos
nós") que se ocupa especialmente em encontrar as Tribos
perdidas do antigo Israel e está logrando bons resultados em
tal obra; há uma área particular no mundo onde muitos dos antigos
israelitas "perdidos" tem sido achados: a India. Há
descendentes dos israelitas deportados pelos assírios em cada
rincão da India, desde o Kashmir a Kerala, desde Assam até o
Afeganistão. Estão sendo identificados não através do idioma,
pois falam línguas indianas, mas através de suas características
culturais - Porém, nenhum deles tem tantos elementos hebraicos
como os ciganos! É um fato acertado historicamente que as chamadas
"Tribos perdidas" de Israel emigraram, segundo indiscutíveis
evidências, para a India durante os períodos persa e macedônico,
e que a maior parte preferiu estabelecer-se na região habitada
por povos escita-sármatas, quer dizer, no vale do Indo, Kashmir,
Rajastan e o alto vale do Ganges. Provavelmente não eram uma
massa homogênea, pois emigraram em grupos separados para terras
diferentes que geraram novas identidades étnicas, o que significa
que os rom são somente um dos vários grupos israelitas que não
conhecem sua própria orígem - a diferença é que os ciganos um
dia regressaram ao ocidente e chamaram a atenção dos europeus,
enquanto que os demais que permanecem no oriente seguem sendo
ignorados e provavelmente perderam a maior parte das características
que permitiriam identificá-los, características que o povo rom
conservou num grau suficientemente aceitável.
Um fator que os estudiosos não levam em consideração quando
investigam o argumento da orígem do povo rom é a complexidade
étnica da India naquele período e supoem que tenha sido uma
população mono-étnica puramente ariana, o que é uma premissa
falsa que leva a conclusões definitivamente errôneas. De fato,
a região de população ariana começava a sudeste de Uttar Pradesh
e ao leste de Rajastan-Gujarat, enquanto que estas regiões e
as terras a oeste das mesmas eram habitadas por povos escita-sarmáticos,
iranianos e inclusive helênicos, além dos exilados israelitas.
Um estudo geral sobre os povos e tribos que habitam desde a
India norte-ocidental até o Iran revela que quase todos eles,
senão todos, mantém em suas tradições a crença de que seus ancestrais
chegaram ali vindos do ocidente, normalmente relacionando tal
movimento com os israelitas deportados ou com os contingentes
de Alexandre Magno. Alguns clans pashtun assim como a maioria
das tribos kashmiris proclamam ser de orígem israelita e inclusive
alguns traçam sua descendência até o Rei Saul; uma tradição
similar existe entre os kalash do Nuristan, um povo que em muitos
aspectos se parece com os ciganos. Os exilados hebreus-assírios
encontraram uma maior tolerãncia entre as gentes escita-sarmáticas
que entre outros, e suas terras eram muito mais preferidas que
as dos intolerantes arianos. O mesmo sucedeu a seus irmãos judeus.
É significativo o fato de que a maior parte de ambos os povos,
judeus e rom, encontraram um refúgio seguro na Europa escita-sarmática
por muitos séculos: efetivamente, o centro de ambas as culturas
foi a Europa oriental, particularmente Hungria e Rússia. O idioma
romaní teria virtualmente desaparecido se os ciganos não se
tivessem estabelecido nesses países, como está provado, a gramática
romaní e grande parte do vocabulário se perderam na Europa central
e ocidental, por causa de perseguições e proibição da manifestação
da cultura cigana, da mesma maneira que aos judeus era proibido
expressar o próprio judaísmo - sem esquecer o que pode significar
para os ciganos ser chamados "arianos" depois da Shoah/Porhaymós...
A estadia na Europa oriental inclusive determinou algumas características
relativas ao vestir, de fato, o típico traje e chapéu que usam
hoje os judeus ortodoxos ashkenazim pertence à nobreza polaca
e báltica do final da idade média e período sucessivo. E não
é muito diferente do traje e chapéu que usam os homens dos grupos
rom mais "ortodoxos". Além do vestir, os ciganos normalmente
usam costeletas abundantes, um aceitável substituto das "pe'ot"
judaicas.
Premissas
para uma hipótese:
•Os
aspectos espirituais e culturais do povo rom coincidem exclusivamente
com antigas características hebraicas;
•Os elementos relativos ao culto do fogo presentes na sociedade
cigana implicam que o povo rom esteve estabelecido na Pérsia
por um período suficientemente longo para havê-los adotado,
e necessariamente antes da dominação islâmica, o que significa,
antes de haver chegado à India;
•Alguns rudimentos culturais escita-sarmáticos presentes nos
costumes ciganos são os únicos vestígios da estadia na India
(além do idioma) e revelam que se estabeleceram na região não-ariana
da India; tais elementos pertencem a esse período e não a um
posterior, porque a cultura escita-sarmática tinha sido plenamente
absorvida pelas civilizações eslavas e húngara quando os ciganos
chegaram à Europa oriental;
•Quanto ao idioma, é muito provável que os rom falassem já uma
língua indiana antes de chegar à India e que essa língua tenha
sido o hurrita, adotado durante os primeiros séculos do exílio
na terra de Mittani.
As evidências
Há evidências irrefutáveis
que concernem ao povo rom, que são a chave para descobrir sua
verdadeira orígem e permitem elaborar uma trajetória histórica
factível. Aqui apresento algumas delas.
Credo
As
crenças ciganas mostram as seguintes características:
•Estrito monoteísmo, sem o mínimo indício de algum passado politeísta
ou panteísta.
•O caráter muito pessoal de Deus, Que é acessível e com Quem
é possível dialogar e inclusive discutir (concepção hebraica)
- não é inacessível como Alá nem tampouco relativamente acessível
como no cristianismo, que necessita de um Mediador para ter
um contato pessoal com Ele.
•A existência de um mundo espiritual que consiste em espíritos
puros e impuros (concepção hebraica), que representam o bem
e o mal e lutam constantemente - este conceito é originalmente
hebraico, porém com uma marcada influência zoroástrica que é
o resultado natural do exílio assírio/babilônico/persa e que
se desenvolveu da mesma forma que o judaísmo cabalístico, mostrando
uma evolução contemporânea da espiritualidade cigana e do judaísmo
místico, no mesmo ambiente geográfico.
•A crença na morte como uma passagem definitiva ao mundo espiritual
(conceito hebreu). Não se encontra o menor indício da idéia
da reencarnação.
•A pessoa falecida é impura durante sua viagem ao reino das
almas (conceito hebreu), e todas as coisas relacionadas com
sua morte são impuras, como também o são seus parentes durante
o período do luto (conceito hebreu). Maiores detalhes no tema
seguinte, "marimé".
•O destino final do cigano depois da morte é o Paraíso, enquanto
que os gadjôs podem ser redimidos e ascender ao Paraíso se foram
bons com os ciganos - uma idéia similar ao conceito judeu de
"justo entre os gentis".
Estes parâmetros de fé vão
mais além da religião "oficial" que os ciganos possam
professar. Geralmente há elementos adicionais que pertencem
à coinfissão adotada, os quais expressam de modo pitoresco e
observam com grande respeito, como por exemplo a "pomana",
uma prática ortodoxa, e outras cerimônias. Também há particulares
complementares de natureza supersticiosa, todos os quais tem
sua orígem no culto do fogo da antiga Pérsia. Alguns são válidos
no interior da sociedade cigana, como por exemplo ter sempre
o fogo aceso em casa, dia e noite, inverno e verão (uma tradição
que mantem as famílias mais conservadoras, enquanto que em geral
está evoluindo para o uso de um fogo "simbólico" como
a televisão, sempre acesa mesmo que não a esteja vendo ninguém).
Outros costumes se praticam só externamente, como a adivinhação,
leitura das mãos, tarot, etc., em cujos poderes particulares
os ciganos não crêem porém os usam como meio de ganho no mundo
dos gadjôs. Isto foi aprendido dos magos e alquimistas da Pérsia.
Há fundados motivos para pensar que os rom eram já cristãos
desde o primeiro século d. c., quer dizer, antes que chegassem
à India ou durante o primeiro período de sua estadia nessa região,
e é a razão pela qual não adotaram nenhum elemento hinduista
em suas crenças. Resulta que os rom eram bem informados sobre
o cristianismo quando chegaram à Europa, apesar de não haver
tido a possibilidade de ler a Bíblia. Há algo misterioso na
espiritualidade cigana que nas últimas décadas os levou a uma
aproximação genuína aos movimentos evangélicos (a forma do cristianismo
mais próxima do judaísmo, sem santos nem culto de imagens) e
neste período muitos ciganos estão dando um passo sucessivo
para o judaísmo messiânico. Não existe nenhum outro povo no
mundo que tenha experimentado um tal número de conversões, quase
em massa, em tão pouco tempo. O fato interessante é que este
fenômeno não é resultado de obra missionária mas que se manifestou
de modo expontâneo e autônomo (efetivamente, os gadjôs dificilmente
se atreveriam a evangelizar os "ciganos", devotos
das artes ocultas e da magia, segundo os comuns preconceitos).
Contra toda probabilidade lógica, ciganos de distintos países
e quase contemporâneamente, sem conhecer-se nem comunicar-se
entre si, começaram a ler a Bíblia e formar suas próprias comunidades
evangélicas. Agora existe a atividade missionária, porém é desenvolvida
pelos ciganos mesmos e dirigida ao próprio povo. Isto se explica
só considerando que existe uma herança atávica que é um fator
especial da espiritualidade romaní. A maioria dos rom agora
está abandonando práticas ancestrais originadas no culto do
fogo e outras práticas proibidas pela Torá, como a pomana, a
adivinhação e outras coisas.
Uma conjectura factível (ressalto: uma conjectura) pode ser
que a primeira aproximação ao cristianismo tenha que ver com
os bíblicos "magos do oriente" que foram adorar ao
infante Yeshua de Nazaré; evidentemente não eram simplesmente
adoradores do fogo persas, mas pessoas que esperavam na promessa
messiânica de Israel. Portanto, israelitas do antigo Reino de
Samaria que nesse tempo estavam já completamente imersos no
culto zoroástrico, porém esperando a redenção do próprio povo.
Documentos históricos assinalam que no século I d. c. houve
conversões em massa na Assíria, onde os apóstolos foram enviados
a buscar as "ovelhas perdidas da Casa de Israel",
e muitos habitavam precisamente nessa região. Outros apóstolos
chegaram à India. Um fato curioso é que os israelitas recentemente
descobertos na India são cristãos, não hindus ou de outra religião.
A completa ausência de elementos hindus na espiritualidade romaní
deve ter um significado.
As
leis rituais, "marimé"
O
conceito cigano de "marimê" equivale à forma negativa
do conceito judeu de "kosher"; o primeiro indica impureza
ritual, o segundo se refere à pureza ritual. A parte esta diferença
de ponto de vista, a essência é a mesma (é como dizer se o copo
está metade cheio ou metade vazio). O que para os rom é marimê,
não é kosher para um judeu, portanto ambos tomaram as medidas
necessárias para não serem contaminados, ou se se referem à
uma contaminação inevitável ou indispensável, ambos seguirão
certas regras para purificar-se. Da mesma maneira que é a kashrut
no judaísmo, as leis que regulam o marimê são um valor fundamental
na sociedade romaní e determinam os limites do ambiente social
e espiritual, e condicionam suas relações com o mundo exterior
(a sociedade dos gadjôs). Os Rom classificam todas as coisas
em duas categorias: "vuzhô" (=kosher, puro) ou "marimê"
(impuro). Esta classificação concerne primeiramente ao corpo
humano, porém se extende ao mundo espiritual, à casa ou acampamento,
animais e coisas.
•O corpo humano: as regras que regem as partes
do corpo que devem ser consideradas impuras são exatamente as
mesmas que encontramos na Torá (Lei de Moisés), em Levítico
cap. 15. Em primeiro lugar, os órgãos genitais, porque transmitem
fluxos do interior do corpo, e a parte inferior do corpo, porque
está abaixo dos genitais. A parte superior externa do corpo
é pura, a boca em primeiro lugar. As mãos tem um caráter transitivo
porque devem exercitar atos puros e impuros alternativamente,
pelo qual devem ser lavadas de um modo particular, por exemplo
se alguém deve comer depois de ter posto os sapatos ou levantado
da cama (que é impura porque está em contato com o corpo inferior).
Quando as mãos foram contaminadas, devem lavar-se com um sabão
separado e secar-se com uma toalha separada para tal fim. Distintos
sabões e toalhas se devem usar sempre para as partes superior
e inferior do corpo, e não podem ser intercambiados.
•Roupas: devem-se distinguir para serem lavadas
separadamente, em diferentes recipientes destinados para cada
categoria. As vestes impuras se devem lavar sempre no recipiente
marimê, e os vestidos puros por sua vez se separam das toalhas
e guardanapos, pois vão à mesa e tem seu próprio recipiente.
As vestes do corpo superior e das crianças se lavam no recipiente
vuzhô, os do corpo inferior no recipiente marimê. Todos as vestes
da mulher são impuras no período das menstruações e se lavam
com os artigos marimê. O único povo que aplica estas regras
para lavar fora os ciganos são os judeus.
•O acampamento: antes da recente urbanização
forçada, o lar romaní era o campo, muito mais que a casa. O
campo goza da categoria de pureza territorial, pelo qual as
necessidades fisiológicas se devem fazer fora do mesmo e das
proximidades (ou eventualmente, os serviços higiênicos se constroem
fora do campo); este é um preceito judaico (Deuteronômio 23:12).
O lixo também deve ser posto a uma distância aceitável do campo.
•Nascimento: o nascimento de uma criança é
um evento impuro e deve ocorrer, quando possível, em uma tenda
isolada próxima, fora do campo. Depois do nascimento, a mãe
é considerada impura por quarenta dias e sobretudo na primeira
semana: esta regra é exclusivamente mosaica, estabelecida na
Torá - Levítico 12:2-4 -. Durante esse período, a mulher não
pode ter contato com coisas puras ou realizar atividades como
cozinhar ou apresentar-se em público, especialmente na presença
dos anciães, e não pode assistir a serviços religiosos. São
destinados pratos, xícaras e utensílios exclusivamente para
ela, os quais se descartam passado o período de purificação,
assim mesmo os vestidos e a cama que usou se queimam, e também
a tenda onde ela habitou durante esses 40 dias. Esta lei é completamente
desconhecida para todos os povos, exceto ciganos e judeus.
•Morte: como prescreve a Lei judaica, a morte
de uma pessoa comporta impureza ritual para todos os familiares
e todas as coisas que tenham sido involucradas nesse momento.
Toda a comida que havia na casa do falecido deve ser jogada,
e a família é impura por três dias. Devem-se observar regras
particulares durante esses três dias, como lavar-se só com água
para não fazer espuma, não pentear-se nem enfeitar-se, nem varrer,
nem fazer furos, nem escrever ou pintar, nem tirar fotografias,
e muitas outras coisas. Os espelhos devem ser cobertos. O acampamento
onde ocorreu a morte é abandonado e transladado a outro lugar,
ou se vende a casa aos gadjôs. A alma do defunto se crê que
vaga por três dias para purificar-se antes de chegar a sua habitação
final: isto não está escrito nas Escrituras Hebréias, porém
é uma idéia comum entre algumas correntes místicas do judaísmo.
O conceito que estabelece que o contato com o corpo morto implica
impureza não se encontra em nenhuma tradição se não só na Bíblia
(Levítico 21:1). Assim como está prescrito na Lei Judaica, também
entre os rom é obrigatório que o corpo seja sepultado e não
pode ser queimado.
•Coisas: podem ser marimê por natureza ou por
uso, ou ser contaminadas por circunstâncias acidentais. Qualquer
coisa que entre em contato com a parte inferior do corpo é impura,
como sapatos, meias, etc., enquanto que as mesas são puras.
As regras que concernem estas leis são descritas em Levítico
15 e outras Escrituras Hebraicas.
•Animais: os ciganos consideram que os animais
podem ser puros ou impuros, ainda que os parâmetros em base
aos quais são classificados diferem dos hebraicos. Por exemplo,
cachorros e gatos são marimê porque lambem a si mesmos, cavalos,
asnos e todo animal de monta é impuro porque a pessoa se senta
sobre eles, etc. Os animais impuros não se devem comer.
•Espíritos: os espíritos maléficos são marimê,
o que é um conceito judaico.
Leis
matrimoniais
O noivado e as bodas ciganas
se celebram da mesma maneira que se fazia no antigo Israel.
Os pais de ambos os esposos tem um papel essencial quanto a
definir o dote da noiva, e as bodas se devem realizar dentro
da comunidade rom, sem participação das instituições dos gadjôs.
No caso em que a mulher foge com seu homem sem o acordo dos
pais, o casal é automaticamente reconhecido como casado, porém
a família do noivo deve pagar um ressarcimento aos pais da noiva,
normalmente equivalente ao dobro do dote; tal compensação se
chama "kepara", uma palavra que tem o mesmo significado
do termo hebreu "kfar" (Deuteronômio 22:28-29). O
pagamento do dote por parte da família do noivo aos pais da
noiva é um regulamento bíblico, exatamente o contrário dos povos
da India, nos quais é a família da noiva que deve pagar à do
noivo.
Há um preceito particular que deve ser observado para consolidar
o matrimônio, o "pano da virgindade", que deve ser
mostrado à comunidade depois da primeira relação sexual - este
preceito está escrito na Torá, Deuteronômio 22:15-17. Logo,
no caso de casais que fogem tal prática carece de sentido e
portanto não é observada.
Comportamento
social
Assim como os judeus, os
ciganos assumem distintos parâmetros de comportamento para as
relações com sua própria gente e para a interação com os estranhos,
de modo tal que se pode afirmar que a oposição rom/gadjôs e
judeus/goyim são reguladas de maneira muito similar, quiçá idêntica
em quase todos os detalhes. Uma vez que os gadjôs não conhecem
as leis que concernem ao marimê, são suspeitos de ser impuros
ou se supõe que o sejam; alguns rom nem sequer entram em casas
de gadjôs - o mesmo costume existia no antigo Israel, e ainda
é praticado pelos judeus ortodoxos. Os gadjôs que se fazem amigos
dos ciganos são admitidos quando conhecem as regras e as respeitam
de modo que não ofendam à comunidade, depois de ter superado
algumas "provas" de confiabilidade. Por outro lado,
as instituições dos gadjôs se usam como "zona franca",
onde se podem realizar atividades impuras com segurança - um
exemplo típico é o hospital, que permite evitar de montar uma
tenda especial para o parto.
Cortesia, respeito e hospitalidade são obrigatórios entre os
ciganos. Quando se cumprimentam cada um deve perguntar pela
família do outro, desejando bem e bençãos para todos os membros,
ainda que seja a primeira vez que se encontrem e na realidade
não se conheçam as respectivas famílias. A própria apresentação
inclui os nomes dos pais, avós e todas as gerações que se recordem
- o nome e sobrenome civis não tem importância; os ciganos se
chamam como no antigo Israel, A filho de B, filho de C, da família
D. Isto é comum a vários povos do Oriente Médio, porém o modo
como o fazem os ciganos é particularmente bíblico.
As causas judiciais entre os rom se apresentam à assembléia
de anciães, exatamente como na Lei Mosaica. A assembléia de
anciães se chama "kris", e é uma verdadeira Corte
de Justiça, cujas sentenças devem ser obedecidas, do contrário
a parte inobservante pode ser excluída da comunidade romaní.
Os casos geralmente não são tão sérios para não poderem ser
resolvidos com o pagamento de uma multa ou ressarcimento, como
está regulado na Torá (Êxodo 21:22, 22:9; Deuteronômio 22:16-19).
Há muitos outros aspectos que podem ser de importância secundária,
que mesmo assim recordam os antigos costumes e regras israelitas.
Lamentavelmente, tais detalhes se vão perdendo com as novas
gerações (como muitos se perderam entre os judeus também) por
causa do sistema da sociedade moderna que restringe a liberdade
de indivíduos e comunidades "exóticas". Porém, os
sentimentos e tendências ciganas devem ser levados sériamente
em conta, porque correspondem à uma herança psicológica ancestral
que se transmitiu de geração em geração, de maneira subconsciente
porém reclamando as próprias orígens. Por exemplo, os ciganos
não sentem absolutamente nenhuma atração pela cultura ou a música
da India (e mais, as mulheres ciganas tem um timbre de voz baixo,
em contraste com as cantoras indianas, um detalhe que pode ser
insignificante, porém quiçá não), enquanto que os ciganos gostam
muito da música do Oriente Médio. Na Europa oriental, a maioria
das expressões musicais são ou judias ou ciganas, e muitas vezes
a mesma obra é atribuida ou a uma ou a outra destas duas tradições.
As bandas de "klezmorim" tem sido muitas vezes compostas
por rom junto com judeus, e o jazz de estilo europeu foi cultivado
por ciganos e judeus. O flamenco é provavelmente de orígem sefaradita,
praticado pelos judeus antes de serem expulsos da Espanha, e
logo herdado e desenvolvido pelos ciganos. Em outros aspectos,
os rom tem uma grande habilidade comercial (e se é necessário
trabalhar em sociedade, os judeus são os preferidos) e aqueles
que escolhem inserir-se profissionalmente na sociedade dos "gadjôs",
preferem as mesmas carreiras que escolhem os judeus (provavelmente
por motivos relacionados com as leis de pureza ritual, que não
permitem que se exercite qualquer tipo de trabalho). Enfim,
ainda que não menos importante, os ciganos fazem uma distinção
entre os "gadjôs" comuns e os judeus, que não são
considerados completamente gadjôs, mas como uma categoria intermediária
que observa as leis de pureza ritual e portanto não estão sujeitos
a suspeitas.
Conclusão:
Este breve estudo tem como
objetivo estabelecer as bases para uma nova, diligente e séria
investigação sobre a orígem do povo rom e sintos, que seja fundamentada
em aspectos culturais e espirituais em lugar de seguir sustentando
uma linha exclusivamente linguística que leva a uma posição
equivocada. As evidências apresentadas não excluem categoricamente
que os rom possam ter habitado em Kannauj ou alguma outra parte
da India, ainda que o vale do Indo pareça ser a região mais
apropriada, mas demonstra que de todas as maneiras os ciganos
não pertencem às etnias indianas (e muito menos arianas), e
que suas raízes são semíticas e mais precisamente hebraicas.
Grupos israelitas eram numerosos na India, e tem sido possível
redescobrir alguns deles deixando de lado a indicação linguística
(porque todos eles falavam línguas indianas) e concentrando
a investigação em indícios culturais que revelam a verdadeira
orígem, tais indícios tem sido até hoje menos determinantes
que os que podemos encontrar na cultura romaní, porém tem sido
suficientes para reconhecer a etnicidade israelita.
Sándor
Avraham
traduzido por João
Romano Filho
Comentários:
«Não sabemos explicar muitos de nossos comportamentos mais expontâneos,
porque fazem parte da nossa herança ancestral. Até que alguém
acenda uma luz e nos diga claramente o porquê de detalhes que
antes nem sequer notávamos. O extraordinário trabalho de pesquisa
de Sándor Avraham é esta espécie de espelho, que nos deixa perplexos».
João
Romano Filho (Sinto Estraxhari do Brasil)
Há rom que se ocupam da investigação e outras atividades culturais
e que dão sua contribuição a este estudo. Aqui desejo citar
uma carta de um autêntico kalderash que conhece profundamente
sua própria cultura, não só porque sua família conserva o estilo
de vida cigano mais "ortodoxo" mas também porque é
um intelectual que logrou um alto nível de educação:
«O termo "o Devel", que em romanês significa "o
Deus", se diz que deriva do sânscrito "Deva".
A mesma palavra em hebreu é "EL". Quando os israelitas
chegaram à India, um país com muitos deuses, tendo cada um seu
nome, eles recordavam que o próprio se chama EL (o Nome inefável
de Deus não podia ser pronunciado, portanto O chamavam simplesmente
"Deus", EL), então disseram que adoravam a "Dev-EL",
ou seja, "o Deus chamado EL". De fato, todo nome hebreu
terminado em "~el" tem que ver com a palavra Deus,
e o fato que os rom O chamam "Devel" - ou a forma
abreviada "Del" - pode ser na realidade hebreu».
(traduzido do romanês)
Lolya
le Yonosko, ande'l Chaykoni (Argentina)
«Para não ignorar a sabedoria local, a primeira coisa que fiz
na India foi perguntar a quantas pessoas me foi possível, se
sabiam ou tinham ouvido falar de onde vinham os Ciganos da India.
Quase sem exceção, me disseram: "nossos Ciganos vieram
de Israel"».
Paul
Polansky
«Há centenas de famílias rom vivendo em Israel, e se consideram
a si mesmos rom e judeus. A maioria deles não só são cidadãos
iraelitas, mas também tem a nacionalidade "Yehudim",
quer dizer, são cidadãos israelitas judeus. Aqueles que tem
cidadania européia vivem como estrangeiros residentes legalmente,
gozando do mesmo respeito que seus concidadãos - um respeito
maior que o que recebem em seus próprios países, onde ainda
há um generalizado sentimento anti-cigano, o que não existe
em Israel. Todos os rom que vivem em Israel apoiam com convicção
ao Estado de Israel, porque é quiçá o único país onde os ciganos
não se sentem como uma minoria estranha mas como um povo que
vive em sua própria terra».
Tomas
Milanovich
«É interessante considerar o povo chamado "habiru"
ou "apiru" nos documentos antigos existentes em todo
o Oriente Médio, em quase todos os países desde a Mesopotâmia
e Anatólia até o Egito. Este termo é equivalente ao bíblico
"hebreus" e era usado exatamente do mesmo modo que
"cigano" na sociedade moderna (implicando os mesmos
prejuízos):
Shulgi de Ur (ca 2150 bce) os descreve como "gente que
viaja em silêncio, que destroi tudo, que vai aonde quer - arma
suas tendas e seus acampamentos - passa o tempo no país sem
observar os decretos do rei". Em seu registro da conquista
de Jaffa, o general Toth do faraó Tuthmoshe III do Egito (ca
1440bce) pede que "seus cavalos sejam levados para dentro
da cidade, para que não se nos roube algum passante apiru"
(o roubo de cavalos parece que era uma de suas atividades bem
conhecidas).
Em língua suméria, são definidos com o logograma “SA.GAZ”, pronuncia-se
GUB.IRU, e são vistos como gente "sem lei". que não
obedece às leis dos demais, de modo que são lei para si mesmos.
"Habiru" era uma definição genérica para vagabundos
sem cidadania nem classe social: a Bíblia diz "Abrão o
hebreu" porque Abrão era apátrida. Também os filhos de
Israel eram apátridas, não tendo nenhuma relação com cidades
e tribos reconhecidas, portanto descritos pelos egípcios como
"apiru".
Num princípio eram considerados gente de orígem hurrita, ou
seja, do país onde habitava Avraham antes de suas viagens em
Canaã e Egito. Antigos documentos afirmam que os habiru estavam
dispersos por toda a Ásia ocidental por séculos até ca 1100
bce, e o termo é usado com o significado de "vagabundos",
"os que passam de uma parte a outra".
É significativo o fato de que este termo desaparece em coincidência
com a aparição do novo nome "Israel" que o recoloca.
Os habirus adquirem uma identidade nacional e um estado reconhecido.
Os israelitas não se chamavam a si mesmos "hebreus",
mas era um termo com o qual os outros os identificavam, no mesmo
modo que os rom não se chamam a si mesmos "ciganos",
mas os demais lhes chamam assim».
Antoshka (Argentina)
«Creio
que aqueles que tinham temor agora podem se apresentar com orgulho,
e aqueles que não sabem quem somos na realidade, um dia cobrirão
a boca com as mãos pela vergonha. Antes ainda que a verdade
sobre nossa herança me tivesse sido revelada, eu lia todo gênero
de literatura que pudesse ajudar a encontrar as nossas "raízes".
Mas tudo o que encontrei era sempre escrito pelos gadjôs, para
os gadjôs! Então o que eu fazia era perscrutar as primeiras
páginas e logo que via aparacer a "teoria indiana",
fechava o livro. Meu coração não confirmava as supostas evidências
que eles propunham e eu sabia que não era a verdade, ainda que
não sabia qual podia ser a verdade. Eu sei que este estudo chegou
neste tempo para aqueles que Deus está elegendo para lhes revelar
a verdade».
Jamie
Hanley “La Cshay” (bailarina de Flamenco - Califórnia)
Fonte:
http://www.imninalu.net/Roma.htm